terça-feira, 1 de novembro de 2011

Os estágios do desenho da criança


Trabalhar com o desenho infantil é apaixonante tendo em vista que o material agregado pretende ser a expressão, senão projeção do analisando. Muitos teóricos buscam conhecer melhor a criança a partir do desenho. Porém, precisamos saber o que queremos com a análise e interpretação do desenho. 

Teóricos como Georges-Henri Luquet entendem o desenho como uma busca da realidade. A perpectiva pela qual Luquet percebe o desenho não faz justiça ao conteúdo projetivo e psicodinâmico nele contido. Apesar de primoroso e inteligente, Luquet objetiva o desenho como um processo em que o indivíduo constrói o real em sua mente. Vejamos como ele fala sobre o desenho: 

“Todo desenho é a tradução gráfica da imagem visual que forneça o motivo apresentado  e,  acreditamos,  de  uma  imagem  visual  mais  ou  menos  nítida realmente presente no espírito do desenhista no momento que ele desenha, o que nós  denominamos modelo interno. Qualquer  que  seja  o  ponto  de vista  subjetivo, do ponto de vista objetivo o desenho é incontestavelmente a tradução gráfica dos caracteres  visuais  do  objeto  representado;  isto  é,  tomando  emprestado  dos estudiosos da lógica o termo “compreensão” pelo qual eles designam o conjunto de  caracteres  de  um  objeto,  o  desenho  de  um motivo  pode  ser  definido  como  a tradução gráfica da compreensão visual desse motivo. (...) Nós acreditamos que a preocupação da criança frente a cada um de  seus desenhos é de o fazer exprimir de um  modo  bem  exato,  bem  completo,  pode-se  dizer  o  mais  literal  possível,  a compreensão  visual  do  objeto  que  ele  representa.  Nenhum  nome  nos  parece exprimir  melhor  essa  característica  que realismo,  e  nós  diremos  que  o  desenho infantil é essencialmente e voluntariamente realista.” (Luquet, 1913, p.145)"


No entanto, nossa busca pelo desenho será sob a ótica de Marthe Berson onde o desenho que se busca é aquele que representa, sem vínculo com a comunicação. Na psicanálise a busca do analista não é aquilo que se vê ou se pretende, mas aquilo que por necessidade do inconsciente se mostra. Nessa perspectiva o desenho, apesar de parecer com algo, podendo representar aquilo que não se vê, mas do qual se fala. Para isso, a forma como Berson vê o paralelismo  e o continuísmo das fases do desenho tem relevância na análise. Dessa forma, vejamos  como evolui na criança e marca a projeção do homem:

O Estágio dos Rabiscos

O desenho nasce na fase em que a criança se percebe como ser que pode produzir, extrojetar - a fase anal. Isso ocorre a partir dos 18 meses de vida. Nesse estágio, o traçado é mais ou menos arredondado, conexo ou alongado e o lápis não sai da folha formando turbilhões. A criança desenha círculos. 

Aos dezoito meses, mais ou menos, apresenta-se o Estágio Vegetativo Motor, o qual consiste na produção de riscos com o formato quase “arredondado, convexo ou alongado” (MÈREDIEU, 2006, p.25), sem tirar o lápis do papel. 






A forma não traz significado e a busca deve ser na tonicidade do traço. Partindo do pressuposto de que o papel é o que é dado à criança, por meio de seus rabiscos pode se perceber a força que exprime em sua vida.

Sobre essa fase, Méredieu chama atenção para a importância do período marcado pela presença dos rabiscos nas produções das crianças. Para ela, esses representam uma  etapa fundamental da maturação sensório-motora do indivíduo.   



Estágio dos desenhos representativo:

A criança avança e dominando o lápis, passa a não se mais guiada pelos espasmos musculares, mas começa a escolher o local onde desenha. Sem abandonar os rabiscos, que sempre terão seu lugar em sua expressão, aos três anos começa a significar seus desenhos. Os movimentos ficam mais lentos, a criança começa a tirar o lápis do papel. Seus círculos começa a contar história. A criança desenha o que sente e não o que vê. Seus desenhos começam a ser nomeados. Entre dois e três anos são caracterizados pelo aparecimento de formas isoladas, o traço passa do contínuo para o descontínuo. Ela comenta sua produção.






Estágio dos desenhos comunicativos

Entre três e quatro anos a criança  tem vontade de escrever e de comunicar-se com outros. Dessa forma tenta expressar pelo grafismo o que quer falar. Seu desenho aproxima-se da escrita, buscando símbolos. Encontra como paradigma a identificação pictórica, visual.  O traçado surge em forma de dentes de serra, que procura reproduzir a escrita dos adultos. O desenho busca o real.

 - desenha animais
 - Desenha pessoas
-Desenha sua  vida.

Dessa forma, o desenho atinge sua fase final.  Aos três anos a criança agrega uma nova característica a seus desenhos: eles tentam corresponder ao mundo que os rodeia.

E importante frisar que na composição das etapas do desenho, elas evoluem não superposição, substituindo a anterior, mas por agregação, isto é, no momento em que a criança desenha o real, este real representa algo, que pela fala pode ser identificado.

A composição do desenho é a composição da fala inconsciente. Nele, o material psicodinâmico se plasma, se adere.  Ao decifrar o desenho, decifra-se, como em um sonho, o desenhista. 

*Os desenhos foram colhidos por alunos em trabalhos no curso "Análise e Interpretação do desenho infantil" .

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